← Back to blog
steply / blog · medo-de-demissao-por-ia-esta-errado-mais-vagas-nao-menos.md
$ steply blog open medo-de-demissao-por-ia-esta-errado-mais-vagas-nao-menos
▸ loading article…
✓ ready

O medo de demissão por IA está saindo errado: vai sobrar mais vaga, não menos

bySteply4 min read

Todo dono de empresa que ouve falar de IA pensa a mesma coisa no fundo: 'vou cortar gente'. Todo funcionário que ouve falar de IA pensa a mesma coisa no fundo: 'vou ser cortado'. Os dois estão olhando o filme errado. O que está acontecendo é o oposto. As empresas que mais adotaram IA estão contratando mais, não menos, e a explicação é simples de entender. Este post mostra o porquê, com números reais de 2025 e 2026, e o que o dono e o gestor precisam fazer agora para não ficar do lado errado dessa conta.

O caso mais claro é o de quem programa software. É o cargo mais 'ameaçado' pela IA nos últimos dois anos, segundo todo mundo. Era o primeiro que ia desaparecer, segundo todo mundo. Em 2025 e 2026 o número de contratação de programador cresceu. Não porque a IA fracassou. Porque a IA funcionou demais.

1. A lógica que ninguém faz a conta

Pense numa padaria. Hoje, um padeiro produz 200 pães por dia. Você tem cinco padeiros, vende 1.000 pães. Aparece uma máquina que faz o padeiro produzir 600 pães por dia, mantendo a qualidade. O dono da padaria tem duas escolhas:

  • Demite três padeiros, fica com dois, continua vendendo 1.000 pães, e economiza salário.
  • Mantém os cinco padeiros, passa a vender 3.000 pães, abre filial, atende clientes novos que antes não pegava, fatura três vezes mais.

Qual escolha um dono que quer crescer faz? A segunda. Demitir só faz sentido quando o mercado é fixo e não dá pra vender mais. Em quase nenhum mercado isso é verdade. Sempre dá pra atender mais cliente, lançar mais produto, abrir mais frente. Quem para de crescer porque ficou produtivo demais é exceção, não regra.

Foi exatamente isso que aconteceu com programador. O mesmo time passou a entregar três vezes mais software. As empresas que antes não conseguiam fazer aquele sistema porque era caro demais, agora conseguem. As que já faziam, fazem mais. Resultado: mais demanda por software, mais demanda por programador.

2. O número que prova

A plataforma onde os programadores guardam código (GitHub) mediu o seguinte: as entregas de trabalho por programador em 2026 estão quase três vezes maiores que em 2024. Ao mesmo tempo, a quantidade de programador contratado no mundo continuou subindo, não caindo.

Por quê? Porque ficou mais barato pra empresa produzir software, então mais empresa decidiu produzir software. Negócio que antes não tinha sistema próprio porque era caro demais, agora tem. Negócio que tinha um sistema básico, agora tem três especializados. O mercado total aumentou. E quando o mercado aumenta, contrata mais gente, mesmo com cada um produzindo mais.

Esse mesmo padrão vai se repetir em outras áreas. Quem faz contabilidade vai entregar mais cliente por contador. Resultado: escritório vai pegar clientes que antes não atendia (pequenos demais, complicados demais), e contrata mais contador, não menos. Quem faz atendimento vai resolver mais ticket por atendente. Resultado: empresa que antes só atendia em horário comercial agora atende 24 horas, em mais canais, e contrata mais gente.

3. Onde vai cortar, então

A regra prática: vai cortar onde o mercado é fixo e a empresa não pretende crescer. Cargo de execução pura, sem possibilidade de expansão de escopo, em mercado já saturado. Esse cargo encolhe.

Mas isso é minoria das vagas, não maioria. A maioria das empresas tem mais demanda do que consegue atender. Tem cliente esperando, tem produto não lançado, tem mercado não explorado. Para essas, IA é o meio de finalmente atender o que ficou para trás, e elas vão precisar de mais gente, melhor preparada, não de menos gente.

O que muda é o perfil. O cargo que só executa tarefa repetitiva pisada num passo a passo está em risco. O cargo que entende o problema do cliente, sabe identificar quando a IA errou, e corrige com bom senso, está em alta. O risco real não é desemprego em massa. É descompasso de perfil. Quem é só executor precisa subir uma faixa. Quem é supervisor já está pronto.

4. O que o dono da empresa precisa fazer agora

Três movimentos práticos, no curto prazo:

  • Parar de pensar em corte e começar a pensar em escala. Olhe a fila de coisas que a empresa não consegue fazer hoje por falta de capacidade. Lança produto novo? Atende mercado novo? Cobre cliente parado há seis meses? Faz pós-venda de verdade? Essa fila é o destino da capacidade extra que a IA vai liberar.
  • Treinar o time atual no novo papel. O executor de hoje vira supervisor de IA amanhã, se receber treinamento. Sai mais barato que contratar gente nova já treinada. E mantém quem já conhece o cliente, o produto, a rotina.
  • Contratar para o gargalo novo. Quando a IA tira o gargalo antigo (volume baixo de execução), aparece um gargalo novo (volume alto, precisa de cabeça boa para revisar). Esse é o cargo a contratar.

5. O que o gestor precisa dizer pro time

O pior cenário pra produtividade é um time com medo de ser demitido. Trava aprendizado, esconde erro, sabota colega que aprende rápido. Isso destrói qualquer projeto de IA.

A mensagem certa para o time, com base no que está acontecendo de verdade: 'a IA vai te tirar a parte chata do trabalho, não o trabalho.' O que vai mudar é o que você faz no dia. Menos digitação, menos repetição, menos planilha. Mais decisão, mais conversa com cliente, mais resolução de exceção. Quem topa subir, sobe. Quem trava, fica para trás. Mas não é a IA que decide. É a pessoa.

Essa mensagem precisa vir do dono, em voz alta, e vir com plano. Plano de treinamento, plano de mudança de função, plano de carreira nova. Sem plano, a mensagem soa como discurso de RH e não convence ninguém. Com plano, vira contrato de confiança que segura o time durante a transição. Esse contrato é o que separa empresa que ganha de empresa que perde nos próximos 24 meses.